Futebol harmonioso!
Nos anos 30, Hugo Meisl criou o primeiro dogma “A melhor defesa é o ataque”. Nos anos 60, Helenio Herrera, mestre do catenaccio, afirmou que “os bons avançados ganham as finais, mas são os bons defesas que ganham os campeonatos”. Um choque de conceitos que se resolve com uma frase de Boris Arkadiev, velho técnico soviético, professor de Lobanovski: “Não existe futebol ofensivo ou futebol defensivo. Existe futebol harmonioso!”
Regressar ás
raízes é sempre bom no debate filosófico-futebolístico.
O futebol ofensivo nasce, em campo, na forma como os elementos mais
recuados conseguem pré-conceber, mesmo antes de recuperada a bola,
qual o movimento ou passe a fazer após consumada essa recuperação.
Ou seja, o dito futebol de ataque tem origem na postura (entendida
como correcta distribuição posicional e da chamada acção-reacção do
pré e pós recuperação da bola) dos jogadores mais recuados. É o
chamado pressing construtivo.
Quando não tem a bola, para além de pensar só em recupera-la, a
equipa já deve saber, com clareza, o que fazer com ela após
resgatar a sua posse. É esta a génese da transição rápida.
Mas agora repare-se: Para poder recuperá-la no local certo para uma
mais eficaz transição defesa-ataque, o papel decisivo pertence,
também, aos…avançados. São eles os primeiros a defender.
Basta ver como o ponta de lança cai em cima do defesa na saída de
bola, impede-o de subir, obrigando-o a um passe lateralizado. Nesse
momento, todas a equipa e suas linhas, sobem 10 metros e já ficam
em condições de iniciar a manobra de recuperação em zonas mais
adiantadas. É o berço do chamado pressing alto.
Caso contrário, as linhas não conseguem subir e a equipa encosta-se
à sua área. Se, pelo contrário, subir as linhas devido à acção dos
avançados, a transição defesa-ataque poderá ser feita em zonas mais
adiantadas e disso depende a sua velocidade e consequente
eficácia.
É por isso
que, as equipas de top, não distinguem fase defensiva de fase
ofensiva. Elas fundem-se numa só através da coordenação de
movimentos, com e sem bola, gerindo tempo e espaço. Elas
contemplam-se reciprocamente e uma tem sempre subjacente a outra,
ao ponto de estes dois timings serem imperceptíveis para um
analista a olho nu.
É este o segredo do melhor e competitivamente mais eficaz futebol
do presente. Por isso, é um erro falar-se em equipas ofensivas
e equipas defensivas. Pode ser mais ofensiva uma equipa a jogar, no
papel, em 4x5x1, do que uma a jogar em 4x3x3.
É impossível praticar-se verdadeiramente futebol ofensivo, com um
«ratio» competitivo realista, sem ter-se, ao mesmo tempo, uma visão
ampla da acção defensiva que não se esgote na mera recuperação.
Nenhuma fase existe sem a outra. É tudo uma questão de dinâmica e
equilíbrio entre linhas.
Basta ver como os jogadores interpretam em campo essas transições e
actos de união defesa-ataque. Esqueçam a retórica da dicotomia do
futebol ofensivo-futebol defensivo, quase como querendo demonstrar
a superioridade moral de uma vitória sobre a outra. É, no fundo,
como regressar ás raízes do conceito de Arkadiev O que existe é
«futebol
harmonioso». Fim de
discussão.










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