O futebol moderno adquiriu características físicas completamente
diferentes de trinta, quarenta anos atrás. O desenvolvimento da
força, velocidade e agilidade mudaram radicalmente a dinâmica das
partidas e até os esquemas táticos. Por meio deste estudo,
procura-se conceituar as capacidades de velocidade e agilidade, e
definir as características de seu treinamento para o
futebol.
VELOCIDADE
HOLLMANN, citado por BARBANTI (1996, p. 68) define velocidade como
a "máxima rapidez de movimento que pode ser alcançada". "Velocidade
é a capacidade, com base na mobilidade dos processos do sistema
nervo-músculo e da capacidade de desenvolvimento da força muscular,
de completar ações motoras, sob determinadas condições, no menor
tempo" (FREY, citado por WEINECK, 1991, p. 210). De acordo com
HARRE, citado por MANSO, VALDIVIELSO e CABALLERO (1996), é a
capacidade motora que se manifesta em sua totalidade nas ações
motrizes onde o rendimento máximo não seja limitado pelo cansaço.
Velocidade é a capacidade de executar ações motoras de maneira mais
rápida possível, em determinadas condições (ZACIORSKIJ, citado por
ACERO, 2000). HARRE e HAUPTMANN, citado por ACERO (2000), definem a
velocidade como uma capacidade psicofísica que se manifesta por
completo em ações motrizes, onde o rendimento máximo não seja
limitado pelo cansaço. GROSSER, citado por ACERO (2000), define a
velocidade como a capacidade de conseguir, por meio de processos
cognitivos, a máxima força volitiva e funcionalidade do sistema
neuromuscular, uma máxima velocidade de reação e de movimento em
determinadas condições estabelecidas.
A velocidade é dividida em: velocidade de reação, velocidade de
movimentos acíclicos, velocidade de locomoção (máxima) e velocidade
de força (BARBANTI, 1996). Para WEINECK (1991), a velocidade se
divide em: velocidade de reação, velocidade acíclica e cíclica e
velocidade de deslocamento. Velocidade de reação é o tempo gasto
entre a resposta (movimento) muscular e o estímulo ou sinal
recebido pelo organismo (STEINBACH, citado por BARBANTI, 1996).
Para GARCIA, MUIÑO e TELEÑA (1977), é a resposta inicial a um
estímulo, começo do movimento. Para BARBANTI (1996), velocidade de
movimentos acíclicos é a rapidez dos movimentos com mudanças de
direção, também conhecida como agilidade; velocidade de locomoção é
conhecida como velocidade máxima ou velocidade de sprint, isto é, a velocidade
máxima que pode ser empregada em qualquer movimento; velocidade de
força é a capacidade de executar movimentos rápidos contra
resistências específicas.
De acordo com GARCIA, MUIÑO e TELEÑA (1977) a velocidade é uma
capacidade inata do ser humano. Para BOMPA (2002), grande parte da
capacidade de velocidade é determinada geneticamente. Quanto maior
for a proporção de fibras de contração rápida em relação às fibras
de contração lenta, maior será a capacidade de contração rápida e
explosiva do organismo. Entretanto, apesar da relação da velocidade
com a genética, ela não é um fator limitante. Os atletas podem
melhorar sua capacidade com o treinamento.
O aspecto coordenativo é muito importante para esta capacidade.
Crianças e jovens que não desenvolverem sua coordenação de membros
superiores terão prejudicado seu desempenho de velocidade de
corrida. Aqui o desenvolvimento multilateral durante a infância
auxiliará no desenvolvimento desta capacidade física (BOMPA,
2002).
A velocidade pode se manifestar de algumas maneiras no futebol,
como descrito abaixo por ACERO (2000):
1 – Ato motor acíclico sem resistência elevada: acompanhar,
empurrar, passar a bola...
2 – Atos motores elementares e cíclicos que acontecem em
pouco espaço e sem resistência elevada: skippings e tappings.
3 – Atos motores com maior resistência (superior a 30% da
força máxima), sobretudo movimentos de aceleração: saídas,
lançamentos, saltos, ações de combates.
4 – Atos motores acíclicos e cíclicos que se repetem várias
vezes: várias saídas e sprints, sem e com mudanças de
direção, ações de jogo e de combate.
5 – Atos motores integrais, em situações simples e complexas:
em jogo - análises de informação rápida.
6 – Resistência de velocidade: tomada de decisão rápida (com
êxito).
Para WEINECK (2000, p. 356), existe uma complexa classificação das
formas como se apresenta a velocidade no futebol:
·
Velocidade de percepção – por meio dos sentidos (visão,
olfato, audição), absorver rapidamente as informações importantes
para o jogo.
·
Capacidade de antecipação – sobre a base da experiência e do
conhecimento do adversário prever as ações dos companheiros e
adversários.
·
Velocidade de decisão – decidir-se no menor tempo possível
por uma ação efetiva entre várias possibilidades.
·
Velocidade de reação – reagir rápido em ações surpresas do
adversário, da bola e dos companheiros de equipe.
·
Velocidade de movimento sem bola – realizar movimentos
cíclicos e acíclicos em alta velocidade.
·
Velocidade de ação com bola – realizar ações com bola em alta
velocidade.
·
Velocidade-habilidade – agir de forma rápida e efetiva em
relação às suas possibilidades técnico-táticas e
condicionais.
GODIK e POPOV (1999) também consideram que a velocidade se expressa
de diversas formas no futebol.
Segundo SCHMID e ALEJO (2002), a velocidade é mais complexa do que
correr o mais rápido possível. A velocidade no futebol inclui
rapidez, tiros curtos, movimentos rápidos em todas as direções, a
habilidade de reagir e parar rapidamente, velocidade e tempo de
reação. Velocidade é uma combinação de força e excelente
resistência, o que é necessário para a realização dos movimentos
com máxima rapidez em todo o tempo.
Treinamento da
velocidade
Segundo POEL e EISFELD, citado por WEINECK (2000, p. 406) o
treinamento da velocidade deve ocorrer em quatro níveis:
1. Coordenação geral, por meio do treinamento da
corrida.
2. Melhoria do poder de saída e de reação com o uso de formas de
treinamento semelhantes ao jogo.
3. Treinamento da velocidade por intermédio de formas de
treinamento específicas do futebol com a utilização da
bola.
4. Treinamento da força.
Considera-se que todos os tipos de treinamento e preparação têm
como objetivo aumentar a rapidez, a velocidade de resposta e a
melhora de sua utilização em condições de competição
(VERCHOSANSKIJ, citado por ACERO, 2000).
A velocidade deve ser treinada tanto no período preparatório, como
no competitivo. No período competitivo, utilizar principalmente
exercícios específicos e com bola (GODIK; POPOV, 1999).
GARCIA, MUIÑO e TELEÑA (1977); SCHMID e ALEJO (2002) colocam como
um dos primeiros passos para a aprendizagem e treinamento da
velocidade, ensinar a técnica de corrida. Com a aquisição dessa
habilidade, o treinamento será otimizado, evitando erros futuros,
lesões por esforços realizados de forma incorreta, treinamento
inadequado e insuficiente, e um gasto energético
desnecessário.
De acordo com dados obtidos por ISRAEL e BLASER, citado por WEINECK
(1991); WEINECK (2000), pode-se concluir que o treinamento de
velocidade deve ocorrer o mais precoce possível, pois há um o risco
de crianças e jovens perderem velocidade por começarem a treinar
tardiamente. Segundo estudos citados por WEINECK (2000), a
freqüência e a velocidade dos movimentos têm o seu mais alto
incremento durante a faixa etária de 6 a 10 anos. Entretanto, na
infância, a velocidade e a força rápida devem ser treinadas quase
que exclusivamente por meio de formas de jogo.
De acordo com BORMS, citado por REILLY, BANGSBO e FRANKS (2000),
durante o treinamento de velocidade na fase pré-púbere, deve-se
preconizar os aspectos coordenativos. Na fase seguinte deve-se ater
na massa muscular e na performance corpórea. Na idade adulta, as
mais variadas formas devem ser aplicadas no treinamento. Para GODIK
e POPOV (1999) os preparadores físicos devem mudar constantemente a
forma de aplicação dos exercícios de velocidade.
Conforme MARKOSJAN e WASJUTINA, citado por WEINECK (1991), no final
da pubescência os tempos de latência e de reação atingem os valores
adultos. O aumento da força máxima e rápida, condicionadas pelos
hormônios (aumento da testosterona nos meninos) (KOINZER, citado
por WEINECK, 1991), e o aumento da capacidade anaeróbia resultam em
altos ganhos de velocidade nessa faixa etária. Nesse período, os
treinamentos anaeróbios podem ser introduzidos para uma melhora de
performance. Devem ser utilizados por meio do treinamento dos
componentes da velocidade, ou seja, da força rápida (FREY, citado
por WEINECK, 1991).
Os principais métodos utilizados para crianças e adolescentes são
os métodos de repetição e intervalos curtos. Deve-se observar a
escolha de cargas e distâncias que garantam uma obtenção de energia
alática (WEINECK, 1991). As crianças e os adolescentes devem
iniciar um trabalho sempre partindo dos exercícios mais simples aos
mais complexos exercícios de reação, até atingirem os mais
diferentes exercícios de reação e de formas técnico-táticas de jogo
específicas do futebol (WEINECK, 2000). GODIK e POPOV (1999)
consideram que o método repetitivo é o melhor para desenvolvimento
e aperfeiçoamento da velocidade. WEINECK (2000), acrescenta ainda,
que a dosagem correta dos componentes da sobrecarga tem importância
fundamental na utilização do método de repetição.
No período da adolescência pode-se realizar um treinamento de
velocidade ilimitado, nos aspectos de condicionamento físico e nos
aspectos coordenativos. Os métodos e conteúdos são semelhantes ao
treinamento dos adultos, e apresentam diferenças no aspecto
quantitativo (WEINECK, 1991). A eficácia do treinamento de
velocidade aumenta com a idade (GOLOMAZOV; SHIRVA,
1996).
BISANZ, citado por WEINECK (2000) preconiza que, pelo menos uma vez
por semana, os adolescentes devem realizar um treinamento
específico de velocidade, de força rápida e da
coordenação.
Segundo BOMPA (2002), o treinamento de velocidade na pós-puberdade
deve se tornar específico, relacionando-se com as exigências da
modalidade praticada. No caso específico do futebol, não se deve
esquecer a utilização da bola neste tipo de treinamento. Os
exercícios físicos com bola aproximam-se do jogo e tem um efeito
benéfico (KUNZE, 1987). Para GOLOMAZOV e SHIRVA (1996), treinar a
velocidade com bola aumenta a precisão do chute.
BOMPA (2002) preconiza para o período da pós-puberdade, em média,
duas sessões semanais de treino de velocidade, com distâncias
curtas de dez a trinta metros. Para GODIK e POPOV (1999) as
distâncias exercitadas devem compreender entre cinco e setenta
metros, com duração entre três e oito segundos.
A recuperação entre as séries é tão importante quanto o exercício
propriamente dito. Essa recuperação deve ser estabelecida em função
do débito de oxigênio, girando em torno de dois a três minutos
(GODIK; POPOV, 1999).
Uma dúvida importante é como saber a intensidade e a quantidade de
“tiros” de velocidade? Segundo GODIK e POPOV (1999);
WEINECK (2000), os “tiros” devem ser realizados no
limite máximo (95-100%). WEINECK (2000) complementa que atividades
com intensidade submáxima trabalharão mais a resistência de
velocidade, que tem um papel secundário nos componentes da
velocidade. GODIK e POPOV (1999) afirmam ainda, que o número de
repetições varia em função do condicionamento, quando o preparador
físico detectar queda no rendimento, deverá interromper o
exercício. O controle pode ser feito por meio da medição dos tempos
de corrida.
Estudo realizado por CUNHA (2003) com equipes de futebol da
categoria juvenil mostrou que 100% das equipes trabalham a
capacidade de velocidade, utilizando exercícios específicos para
desenvolvê-la.
Agilidade
“A agilidade se refere à capacidade do atleta de mudar de
direção de forma rápida e eficaz, mover-se com facilidade no campo
ou fingir ações que enganem o adversário a sua frente”
(BOMPA, 2002, p. 51). Segundo RIGO (1977), agilidade é a
movimentação do corpo no espaço, ou seja, movimentos que incluam
trocas de sentido e direção. Para BARBANTI (2003, p. 15), é a
“capacidade de executar movimentos rápidos e ligeiros com
mudanças de direção”. Para BARROS, citado por OLIVEIRA (2000,
p. 24), a agilidade é “uma variável neuro-motora
caracterizada pela capacidade de realizar trocas rápidas de
direção, sentido e deslocamento da altura do centro de gravidade de
todo corpo ou parte dela".
Para SCHMID e ALEJO (2002), equilíbrio, força, coordenação e
resistência são componentes necessários da agilidade. Segundo
OLIVEIRA (2000), muitas definições colocam a agilidade como
inserida na velocidade, diferenciando-se apenas quanto às mudanças
de direção.
A agilidade no futebol é a habilidade para mudar os movimentos o
mais rápido possível frente a situações imprevisíveis, tomando
rápidas decisões e executando ações de modo eficiente (SCHMID;
ALEJO, 2002).
Treinamento da
agilidade
“A agilidade desenvolve-se por meio de exercícios que exigem
uma inversão rápida dos movimentos com participação de todo o
corpo” (KUNZE, 1987, p. 140). Para os jogadores de futebol, o
treinamento da agilidade é ótimo para melhorar os níveis de
habilidade (SCHMID; ALEJO, 2002).
O treinamento da agilidade, durante a pré-temporada, deveria ser
realizado de duas a três vezes por semana e, durante a temporada,
uma ou duas vezes por semana (SCHMID; ALEJO, 2002).
Segundo estudo realizado por CUNHA (2003), 57% das equipes de
futebol da categoria juvenil realizam um trabalho específico de
agilidade. Isso pode ser explicado, pois muitos preparadores
físicos não distinguem o trabalho da velocidade com o da agilidade,
treinando as duas capacidades conjuntamente. A definição fornecida
por BARBANTI (1996) para a velocidade acíclica, confirma essa
afirmação, para o autor velocidade acíclica também é conhecida como
agilidade.
CONCLUSÃO
Portanto, pode-se demonstrar a importância fundamental das
capacidades de velocidade e agilidade no futebol.
Os preparadores físicos devem conhecer a fundo as características
de seus jogadores, como idade e biotipo, e assim, desenvolver de
forma eficaz um programa de condicionamento físico, não esquecendo
também da diferenciação do trabalho por posição.
A correta programação e execução do condicionamento físico,
acarretará ganhos importantes aos atletas, podendo assim ser um
fator determinante, de forma positiva, no resultado de uma
partida.
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