Resumo:
No contexto desportivo, a velocidade tem
sido entendida como uma capacidade motora cujo desenvolvimento é
fortemente determinado pela faceta genética, o que lhe confere um
reduzido potencial de treinabilidade. Contudo, se bem que seja
comum dizer-se que já se nasce velocista, para nós é claro que nos
jogos desportivos é possível ser-se rápido sem que se disponha das
características de um corredor de velocidade ou de um saltador. No
presente artigo, procura-se sustentar que nos jogos desportivos
colectivos não existe uma, mas várias velocidades, cuja lógica de
expressão e desenvolvimento implica uma subordinação às exigências
particulares da actividade desenvolvida durante o jogo. Neste
sentido, é avançada uma perspectiva centrada na interligação das
valências perceptivas, decisionais e motoras, e cuja configuração
contempla o entrelaçamento da velocidade com os factores de
natureza técnica e táctica.
1.
Introdução
Na actividade
desportiva, o praticante procura, através do seu corpo, que é,
simultaneamente, sujeito e objecto da acção (Panafieu, 1984), jogar
sobre o tempo no sentido de modificar as suas acções para melhor se
adaptar ao envolvimento (Jalabert, 1998).
Neste contexto,
a velocidade motora, entendida como uma capacidade humana que
condiciona a realização dos movimentos desportivos, constitui um
factor do rendimento ao qual se tem vindo a atribuir grande
importância. Treinadores e investigadores têm voltado as suas
preocupações, não só para as formas de manifestação que a
caracterizam, mas também para o modo de as transformar em indutores
de eficiência e eficácia das acções
desportivas.
Curiosamente,
este realce dado à velocidade parece faz parecer omisso o velho
ideal olímpico grego, segundo o qual o desporto constituiria a via
para o Homem chegar mais longe, saltar mais alto e ser mais forte
(Citius, Altius, Fortius).
De facto, à luz
das exigências do desporto actual, não basta chegar mais longe, nem
saltar mais alto, nem ser mais forte, é preciso ser mais rápido,
mais veloz. Mais rápido, não apenas a chegar ao local desejado, ou
a realizar uma acção, mas também a pensar, a encontrar soluções, a
perceber o erro, a descodificar os sinais do envolvimento. Em
síntese, mais rápido e melhor, a perceber, a pensar e a
agir.
Este ponto de
vista admite, implicitamente, que o ideal olímpico parece omitir
uma dimensão fundamental da prática desportiva enquanto actividade
humana: a inteligência. Não uma inteligência abstracta e
estática, tantas vezes enfatizada, mas uma inteligência do
comportamento motor, através da qual o Homem, não só se adapta
estrategicamente às exigências colocadas pelo envolvimento, como
também está capacitado para nele provocar, intencionalmente,
alterações que lhe sejam favoráveis.
2. A(s) velocidade(s) nos jogos desportivos
colectivos
O contributo
relativo da velocidade para o rendimento varia de acordo com as
exigências de cada modalidade desportiva (Dick,
1989).
Os jogos
desportivos colectivos (JDC) constituem modalidades que se
caracterizam por complexas relações de oposição e de cooperação que
decorrem dos objectivos dos jogadores e das equipas em confronto e
do conhecimento que estes possuem do jogo, de si próprios e do
adversário (Garganta & Oliveira, 1996).
Dado que, neste
contexto, a dimensão estratégico-táctica assume um papel
determinante, o conceito de velocidade transcende claramente a
concepção clássica que a define como a capacidade de executar
acções motoras no mais breve tempo possível.
Estamos,
portanto, perante um problema de adequação da expressão da
velocidade às tarefas a realizar. Nas modalidades que fazem parte
deste grupo de desportos, o que se demanda constantemente é uma
síntese entre velocidade e eficácia na tarefa, o que implica
perceber a importância que assume a unidade entre o sistema
perceptivo e a velocidade de realização.
As interacções
do sistema perceptivo com a velocidade de realização organizam-se
em torno de três eixos (Jalabert, 1998):
·
selecção das
informações - o jogador de
alto nível ganha tempo seleccionando, cada vez mais rapidamente,
num caos de informações, aquelas que lhe são mais úteis para
atingir o objectivo;
·
ligação entre
as informações - o jogador de
alto nível invoca as experiências passadas para prever as
consequências das acções que realiza. Nesse sentido, é capaz de
estabelecer conexões entre elementos como a orientação dos apoios,
a postura do adversário, as linhas de força da defesa contrária, as
trajectórias imprimidas à bola, e outros, os quais se revelam
determinantes para a obtenção de sucesso;
·
reorganização
sensorial do controlo do movimento
- ao invés do
principiante, para quem o controlo visual da bola é indispensável,
o jogador confirmado utiliza a propriocepção, o que se torna mais
económico em termos de tempo, dado que tal o disponibiliza, do
ponto de vista cognitivo, para o tratamento da
informação.
Face a este
cenário, parece pertinente considerar não uma, mas várias formas de
velocidade. Aliás, Weineck (1994) e Gambetta et al. (1998) ilustram
bem este facto, no âmbito do Futebol, ao considerarem a
coexistência de sete formas:
·
a velocidade de
percepção - relacionada
com a habilidade para processar estímulos auditivos e visuais e
tomar decisões a partir de uma variedade de escolhas dependentes de
uma situação particular;
·
a velocidade de
antecipação - relacionada
com a habilidade para prever as probabilidades de evolução das
linhas de força de uma situação;
·
a velocidade de
decisão - relacionada
com a habilidade para, após ter analisado uma situação, decidir o
que fazer;
·
a velocidade de
reacção - relacionada
com a habilidade para reagir a uma acção ou estímulo
prévio;
·
a velocidade de
movimento sem bola - relacionada
com a habilidade para executar acções sem bola (desmarcações,
tackles, marcações, saltos, mudanças de direcção e
outras);
·
a velocidade de
acção com bola - relacionada
com a habilidade para executar as habilidades técnicas específicas,
na relação com o móbil do jogo;
·
a velocidade de
acção de jogo - relacionada
com a habilidade para tomar decisões durante o jogo e executá-las
em relação com as condicionantes técnicas e tácticas, i.e., para
agir correctamente, no tempo certo.
Se tomarmos
como exemplo a corrida dos jogadores, nos JDC, constataremos que
ela não é linear nem a meta é antecipadamente conhecida. Os
praticantes deparam com muitas e variadas "metas" a atingir ao
longo do jogo, pelo que o desenvolvimento da velocidade assume
contornos complexos.
Atentemos
noutro exemplo. No Andebol, no Basquetebol e no Futebol, os
estímulos visuais são prevalecentes (análise de trajectórias da
bola, percepção das movimentações dos colegas e adversários, ...).
Num atleta que revele dificuldades ao nível da percepção de
estímulos visuais, está comprometido um dos elos da cadeia (a
captação do estímulo) e, por consequência, está condicionada
negativamente a capacidade para ser rápido nas acções que deve
desenvolver.
De facto, a
expressão da velocidade decorre, não apenas da brevidade de reacção
aos estímulos ou da velocidade gestual, mas também do tempo
necessário à identificação, ao tratamento rápido da informação e ao
reconhecimento e avaliação das situações complexas de jogo. Como
sustenta Paillard (1990), em matéria de tratamento da informação, o
tempo de que se dispõe para operar é mais importante do que a
quantidade ou a qualidade das acções a
realizar.
Verifica-se,
contudo, que os estudos dirigidos para a compreensão da lógica da
velocidade têm-se voltado, preponderantemente, para a parte
observável da acção, ou seja para o tempo de movimento, enquanto
que o lado invisível, relacionado com o tempo de reacção (Meignan
& Audifren, 1997), inerente às questões do processamento da
informação, nomeadamente nas facetas perceptiva e decisional, é
tratado com menor incidência.
A este facto
não são alheias as conclusões provindas de alguns estudos
realizados por especialistas, os quais, tendo por referência o peso
dos factores genéticos e adaptativos, vêm difundindo a ideia de que
a velocidade é a mais acondicionada geneticamente de todas as
designadas características motoras básicas e que, portanto, a sua
treinabilidade é reduzida.
Consideramos,
todavia, que esta é uma forma restritiva de colocar o problema,
porque a realidade tem evidenciado que nos JDC as possibilidades de
desenvolvimento da velocidade passam, em grande parte, pela
exercitação conjugada das capacidades motoras com as habilidades
táctico-técnicas, nas quais aspectos como a atenção, a capacidade
de discriminação dos sinais pertinentes e a justeza decisional se
revestem de uma importância fundamental. Neste sentido, o treino de
tais factores tem permitido maximizar as valências musculares ou,
nalguns casos, disfarçar até as suas
limitações.
A capacidade de
previsão, por exemplo, permite que um jogador, mesmo sendo "mais
lento" do que outro, do ponto de vista neuromuscular, possa chegar
mais depressa a um determinado lugar do terreno de jogo, porque
previu e antecipou a resposta.
Atentemos nos
movimentos basilares de locomoção dos jogadores, nas suas
diferentes formas (marcha, trote, corrida rápida, sprint).
Podemos constatar que as razões da sua expressão se fundam numa
intencionalidade guiada, sobretudo, por imperativos tácticos. O
jogador desloca-se para algum lugar, com maior ou menor
intensidade, num ou noutro momento, em função da movimentação dos
colegas e adversários, e da posição da bola, isto é, em função das
configurações do jogo (Garganta, 1997).
De acordo com
este entendimento, a velocidade motora, longe de se restringir à
acepção física do termo, que a situa como uma grandeza física, dada
pela relação entre o espaço percorrido por um objecto e o tempo
necessário para o percorrer, impõe-se, sobretudo, como uma grandeza
táctico-técnica, perceptiva e informacional, que se consubstancia
no que se pode designar por velocidade de realização,
quando nos referimos à prestação individual do jogador, ou por
velocidade de jogo, quando nos reportamos ao desempenho
das tarefas da equipa, enquanto unidade colectiva, nas diferentes
fases que o jogo atravessa.
A velocidade de
realização resulta, assim, da conjugação de diferentes e
complementares aspectos, e.g., fisiológicos (nível de
contractibilidade das fibras musculares), biomecânicos
(intensidade, orientação e transmissão do complexo de forças em
presença) e perceptivos (natureza dos receptores sensoriais que
controlam o movimento). A velocidade de jogo resulta, não do
somatório das velocidades parcelares de realização dos jogadores,
tidos como célula ou individualidade, mas da forma como a equipa,
enquanto superestrutura, gere os diferentes momentos configurações
do jogo e a eles reage colectivamente, tal como um tecido celular
inteligente.
Tal sugere que,
nos JDC, o facto da velocidade ser treinada através de exercícios
nos quais se exige que a tarefa proposta se realize no mais breve
tempo possível, é condição necessária mas não suficiente para que o
efeito de treino se oriente no sentido pretendido. Para além de
executar depressa é necessário executar bem, isto é, de forma
ajustada.
2.1. A velocidade de
jogo
Os JDC
praticados ao mais alto nível, são caracterizados por requererem um
ritmo muito elevado e por reclamarem dos jogadores um empenho
permanente. A existência de sistemas defensivos cada vez mais
pressionantes implica exigências crescentes, nomeadamente no que se
refere à velocidade de processamento da informação e de
execução.
No jogo
ocorrem, cada vez com maior frequência, circunstâncias nas quais os
jogadores devem realizar acções de adaptação com elevada
velocidade. Todavia, ao atribuir-se às capacidades motoras um
estatuto de autonomia, à margem do contexto táctico que as reclama,
o significado de características como esta pode ser
destorcido.
Por isso,
Brettschneider (1990) alerta quem pretender analisar os jogos
desportivos e a prestação dos jogadores, para que o faça através da
análise do contexto no qual ocorrem as acções, não se devendo
limitar a aspectos isolados.
Quando,
tentando analisar parcelarmente os JDC, falamos em velocidade, no
sentido restrito, não conseguimos um aporte de informação
importante para melhorar a qualidade do treino e do jogo. A
velocidade está sempre relacionada com o ajustamento temporal
(Balash, 1998) e espacial das acções, e também com as
características da tarefa a realizar. Trata-se, portanto, de uma
velocidade táctico-técnica.
Estando a
velocidade intimamente associada a acções de intensidade maximal,
alguns especialistas (ver por exemplo, Palfai, 1979; Ekblom, 1986)
têm referido que aquilo que diferencia o nível dos jogadores e das
equipas, no que respeita à actividade realizada durante as
partidas, não é tanto o número de acções, mas fundamentalmente a
intensidade com que elas são desenvolvidas.
Quando os
desportistas se movimentam em função de um móbil de jogo (a bola) e
interactuam com elementos móveis dotados de autonomia (colegas e
oponentes), as acções não podem ter uma duração fixa. A acção
desenvolvida pelo sujeito decorre, não só da leitura da
configuração do momento, mas também da previsível evolução das
linhas de força do jogo, em função da velocidade de que se está
animado para fazer coincidir a execução com o momento (tempo ) e o
lugar (espaço) exigidos para obter êxito.
De facto, a
velocidade de realização parece ser um indicador do nível de jogo.
Os melhores jogam mais depressa. Todavia, a intensidade com que um
jogador executa as acções no jogo, depende, por um lado, da forma
como ambas as equipas em confronto condicionam o ritmo do jogo, e,
por outro, da qualidade das escolhas e das opções táctico-técnicas
efectuadas pelo jogador no seu decurso.
Sabe-se que não
é apenas na forma, mas também no ritmo de execução das habilidades
técnicas, que os jogadores mais talentosos se distinguem dos demais
(Mercier, 1979). Contudo, a velocidade das acções do jogador
adquire sentido quando relacionada com a velocidade de jogo, isto
é, com a interacção de várias formas de manifestação parcelares que
se entrecruzam e que vão desde a velocidade mental (Cianciabella,
1995) até à velocidade de deslocamento e de execução, numa
interacção recorrente entre colegas e concorrente entre
adversários.
Quer isto
confirmar que os melhores não jogam apenas mais depressa. Jogam,
sobretudo, mais eficazmente, fazendo variar a velocidade de
realização e de jogo, em função das características do momento e
das possibilidades de evolução das linhas de força da
jogada.
O jogo em que o
jogador se posicionava para receber a bola, depois observava,
pensava e agia, faz pouco sentido no contexto actual. As marcações
são cada vez mais pressionantes, a velocidade de jogo cada vez mais
elevada, o tempo para agir cada vez mais curto, pelo que cada vez é
mais premente a necessidade de realizar a antecipação mental e
motora. Neste contexto, a compatibilização da velocidade com a
precisão parece ser um problema importante.
Já em 1951,
Gibbs demonstrou que existe uma correlação negativa entre
velocidade e precisão.
Também se sabe,
desde 1942 com Fulton, que o nível de precisão adquirido a baixa
velocidade decresce rapidamente quando esta aumenta e que, pelo
contrário, quando se pede a um indivíduo, que treinou a elevada
velocidade, que procure cuidar os aspectos de precisão, ele perde
pouca velocidade.
Este preceito
reveste-se de grande importância, nomeadamente pelas repercussões
que pode ter quando se pretende eleger uma metodologia para
promover a aquisição eficaz das diferentes habilidades técnicas nos
JDC.
Há, por isso,
que considerar a relação da velocidade das acções com a precisão e
com antecipação da resposta motora decorrente dos aspectos tácticos
do jogo. Segundo Dugrand (1989), embora exista uma relação negativa
entre velocidade e precisão, verifica-se uma relação positiva entre
a velocidade e a "previsibilidade" das soluções retidas pelos
jogadores.
A este
propósito, Bouthier (1988) sustenta que os jogadores mais
experientes e os mais inteligentes se distinguem pelo apuro das
capacidades de antecipação, quer na evolução das relações de
oposição, quer nas escolhas tácticas mais ajustadas, quer ainda na
execução das correspondentes operações que viabilizem o
desencadeamento dessas acções em tempo útil.
Também Ripoll
(1979), num estudo em que comparou praticantes de Basquetebol com
sujeitos não praticantes, demonstrou que os segundos, não obstante
serem capazes de reconhecer uma considerável quantidade de
informação sobre o jogo, ignoravam a sintaxe e o conteúdo semântico
das mesmas.
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